O IPCA de maio veio abaixo das expectativas do mercado. O índice oficial de inflação recuou para 4,1% ao ano, o menor patamar desde o início de 2024. Os economistas comemoraram, o governo comunicou com entusiasmo, e as manchetes dos jornais financeiros foram positivas. Mas nas filas dos supermercados de periferia, a realidade contada pelos carrinhos de compra é bem diferente.
A cesta básica — aquele conjunto de 13 alimentos essenciais que o DIEESE monitora mensalmente — subiu em 14 das 17 capitais pesquisadas em maio. Em Recife, o aumento foi de 3,2% em apenas um mês. Em Belém, 2,8%. Em São Paulo, onde o custo de vida já é o mais alto do país, a cesta chegou a R$ 812 — um recorde histórico.
Por que os índices divergem
A explicação técnica para essa aparente contradição está na composição dos índices. O IPCA mede uma cesta ampla de produtos e serviços, que inclui desde passagens aéreas até planos de saúde. Quando os preços de serviços e bens duráveis caem — como aconteceu em maio, com a queda nos preços de eletrodomésticos e passagens —, o índice geral recua, mesmo que os alimentos básicos continuem subindo.
Para as famílias de menor renda, que gastam uma proporção muito maior da sua renda com alimentação, esse movimento do índice geral é quase irrelevante. "Uma família que ganha dois salários mínimos gasta em torno de 40% da renda com comida. Para ela, a inflação real está muito mais próxima de 7% do que de 4%", explica a economista Patrícia Souza, do IBRE-FGV.
Variação da cesta básica em maio 2026 (seleção)
Os produtos que mais puxaram a alta foram feijão, óleo de soja e frango. O feijão, alimento básico da dieta brasileira, acumulou alta de 22% nos últimos 12 meses — impactado por problemas climáticos nas principais regiões produtoras e por uma demanda de exportação que pressiona os preços internos. O óleo de soja subiu por razões parecidas: a soja brasileira está sendo exportada em volumes recordes, reduzindo a oferta interna.
O impacto nas famílias
Dona Maria das Graças, 54 anos, mora em Guarulhos e trabalha como diarista três vezes por semana. Ela não precisa de índices para saber que as coisas ficaram mais caras. "Antes eu saía do mercado com R$ 200 e enchia o carrinho. Agora com R$ 200 não consigo nem a metade do que precisava", diz ela. "Deixei de comprar carne. Agora é frango quando tem promoção, e muito ovo."
A substituição de proteínas mais caras por mais baratas é uma estratégia que os pesquisadores de segurança alimentar chamam de "downgrading nutricional". É um sinal de alerta: quando as famílias começam a trocar carne bovina por frango, frango por ovo, e ovo por feijão, a qualidade nutricional da dieta se deteriora, com consequências de longo prazo para a saúde.
"O Brasil saiu do mapa da fome em 2023, mas a insegurança alimentar leve e moderada ainda afeta mais de 40 milhões de pessoas. A inflação de alimentos é um dos principais fatores que mantém esse número elevado." — Patrícia Souza, IBRE-FGV
O governo federal tem respondido com programas de transferência de renda e com intervenções pontuais no mercado de alimentos, mas economistas divergem sobre a eficácia dessas medidas no curto prazo. O que parece consenso é que, enquanto os preços dos alimentos básicos continuarem subindo acima da inflação geral, a narrativa de "inflação controlada" vai soar vazia para uma parcela significativa da população brasileira.