São Paulo registrou 38,4°C na última quinta-feira. Em Cuiabá, o termômetro chegou a 42°C. No Rio de Janeiro, a sensação térmica ultrapassou os 47°C em bairros da zona norte. Não são números isolados — são parte de um padrão que climatologistas brasileiros vinham alertando há anos e que, em 2026, finalmente se tornou impossível de ignorar.

A onda de calor que varreu o Centro-Oeste e o Sudeste nas últimas semanas expôs uma realidade que vai muito além do desconforto: cidades brasileiras, em sua maioria, não foram projetadas para suportar as temperaturas que o aquecimento global está tornando cada vez mais frequentes. Falta arborização, faltam espaços de resfriamento público, faltam sistemas de alerta eficientes para populações vulneráveis.

O que os dados mostram

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), junho de 2026 já é o mais quente registrado desde que o monitoramento sistemático começou, em 1961. A temperatura média nas capitais brasileiras está 2,1°C acima da média histórica para o período. Isso pode parecer pouco, mas os especialistas explicam que pequenas variações médias se traduzem em eventos extremos muito mais frequentes.

"Quando a temperatura média sobe dois graus, a probabilidade de dias com calor extremo não dobra — ela multiplica por cinco ou seis", explica a climatologista Dra. Fernanda Lopes, pesquisadora do INPE. "É uma relação não linear que a maioria das pessoas não intui."

"As cidades brasileiras foram construídas para um clima que não existe mais. Estamos vivendo as consequências de décadas de planejamento urbano que ignorou completamente a questão climática." — Dra. Fernanda Lopes, INPE

Os grupos mais afetados são os de sempre: trabalhadores informais que não podem parar de trabalhar ao ar livre, moradores de periferias onde o asfalto e a falta de verde amplificam o calor, idosos que vivem sozinhos em apartamentos sem ventilação adequada. O sistema público de saúde registrou um aumento de 34% nas internações por problemas relacionados ao calor em comparação com o mesmo período de 2025.

Políticas públicas: o ritmo lento de uma urgência

O Plano Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas, lançado em 2022, prevê uma série de medidas para tornar as cidades mais resilientes ao calor. Mas a implementação tem avançado de forma desigual. Algumas capitais, como Fortaleza e Curitiba, desenvolveram programas próprios de arborização urbana e criação de "ilhas de resfriamento". A maioria, porém, ainda está na fase de diagnóstico.

O problema não é apenas de vontade política. É também de financiamento. Os municípios brasileiros, especialmente os menores, não têm capacidade técnica nem orçamentária para implementar as mudanças necessárias sem apoio federal. E o repasse de recursos para adaptação climática urbana ainda representa uma fração pequena do orçamento disponível.

Em São Paulo, a Prefeitura anunciou em março um programa de plantio de 100 mil árvores até 2027. Urbanistas avaliam que o número é insuficiente — a cidade precisaria de pelo menos 500 mil novas árvores para começar a fazer diferença mensurável na temperatura das ruas. "É um começo, mas não podemos confundir começo com solução", diz o arquiteto e urbanista Celso Maia, da USP.

O que pode ser feito agora

Enquanto as políticas de longo prazo avançam em câmara lenta, algumas medidas imediatas poderiam reduzir o impacto das ondas de calor sobre as populações mais vulneráveis. Especialistas apontam para a criação de centros de resfriamento público — espaços com ar-condicionado abertos à população durante picos de calor, como já existe em várias cidades europeias e norte-americanas.

Sistemas de alerta precoce também são fundamentais. Em países como França e Alemanha, após as tragédias das ondas de calor dos anos 2000, foram criados protocolos que ativam automaticamente redes de assistência a idosos e pessoas vulneráveis quando as temperaturas ultrapassam determinados limites. No Brasil, esses sistemas ainda são incipientes e fragmentados.

A boa notícia, se é que se pode chamá-la assim, é que o tema finalmente entrou na agenda política com uma urgência que antes faltava. A questão é se a velocidade das respostas será compatível com a velocidade das mudanças.